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Tiques e síndrome de Tourette no adulto: o que muda e como tratar

A síndrome de Tourette costuma melhorar na vida adulta, mas pode persistir. Entenda o que são tiques, quando investigar e quais são os tratamentos. Por Dr. Victor Maciel, neurologista (CRM/SP 205.127 · RQE 110265).

Em resumo

• Tiques são movimentos ou sons rápidos e repetitivos, precedidos por uma sensação de urgência (o impulso premonitório) e aliviados ao serem executados.
• A síndrome de Tourette combina tiques motores e vocais com início na infância. Na vida adulta, tende a melhorar ou desaparecer em boa parte dos casos.
• Tiques que começam na vida adulta pedem investigação: podem ter causas secundárias, como medicamentos ou outras condições.
• Palavrões involuntários (coprolalia) são minoria, não a regra. Tiques não são "mania" nem falta de educação.
• Trata-se quando atrapalha: dor, constrangimento ou prejuízo na vida. As opções incluem terapia comportamental específica, medicações e toxina botulínica para tiques focais.

Quando falo de síndrome de Tourette em consulta, a maioria dos pacientes adultos pensa em crianças, ou no retrato caricato dos filmes. Mas adultos também convivem com tiques, e a experiência deles costuma ser bem diferente dessa imagem.

O que são tiques, afinal

Tique é um movimento ou som rápido, repetitivo e involuntário: piscar forte, encolher os ombros, mexer o pescoço, limpar a garganta, pequenos sons. O detalhe mais característico é o que acontece antes. Surge uma sensação de urgência ou desconforto crescente, uma espécie de coceira interna, que só alivia quando o tique acontece. É o chamado impulso premonitório.

Por isso, tiques não são "mania" nem falta de educação. A pessoa consegue segurá-los por algum tempo, numa reunião, por exemplo. Mas o custo é um desconforto que cresce até o tique "escapar".

Síndrome de Tourette e o que muda na vida adulta

A síndrome de Tourette é definida pela presença de tiques motores e vocais, com início na infância ou adolescência e duração superior a um ano. Quadros discretos são a maioria.

E o que acontece quando a criança cresce? O curso natural é, em geral, favorável:
• Em muitas pessoas, os tiques melhoram ou desaparecem no fim da adolescência e no início da vida adulta.
• Em uma parcela, eles persistem, às vezes mais discretos, às vezes com fases de piora e alívio.
• Também pode haver reemergência: tiques que tinham sumido voltam na vida adulta, frequentemente sob estresse intenso.

Um ponto que merece atenção redobrada: tiques que começam do zero na vida adulta não seguem o roteiro clássico da Tourette. Nesse caso, a avaliação procura causas secundárias, como uso de certos medicamentos (estimulantes, por exemplo), lesões cerebrais, outras condições neurológicas ou psiquiátricas. Sem alarmismo, mas com investigação cuidadosa.

Desfazendo o estereótipo

A imagem popular da Tourette, a pessoa gritando palavrões, corresponde à coprolalia. Ela existe, mas em uma minoria dos casos. A maioria dos adultos com tiques tem manifestações discretas: piscadas, movimentos de rosto ou pescoço, pigarros. Muitos convivem anos sem diagnóstico porque o quadro "não parecia Tourette".

Essa caricatura tem custo. Gera constrangimento e faz pessoas adiarem a avaliação. Tique é um fenômeno neurológico, não é hábito nem imitação.

As companhias frequentes

Raramente o tique vem sozinho. As condições que mais acompanham a Tourette são o TDAH, com dificuldade de atenção e impulsividade presentes muitas vezes desde a infância; o TOC, cujas obsessões e compulsões podem se misturar aos próprios tiques; e a ansiedade, que tende a piorar os tiques e ainda sofre com o constrangimento que eles causam.

Na prática, essas companhias frequentemente pesam mais na qualidade de vida do que os próprios tiques. Não raro, tratar a ansiedade ou o TDAH melhora também os tiques, sem mexer neles diretamente.

Quando tratar, e com o quê

Nem todo tique precisa de tratamento. A pergunta central é: está atrapalhando? Os motivos mais comuns são dor (movimentos repetitivos de pescoço podem gerar cervicalgia), constrangimento e prejuízo funcional no trabalho, nos estudos, nos relacionamentos.

Quando há indicação, costumo discutir três caminhos. O primeiro é a terapia comportamental específica (CBIT), um treino de reversão de hábito em que a pessoa aprende a reconhecer o impulso premonitório e a responder com um movimento "competidor". É a primeira linha para muitos casos, com boa evidência de eficácia. O segundo são as medicações, indicadas quando os tiques são intensos ou a terapia não é suficiente; existem opções consagradas, e a escolha depende do perfil de cada pessoa e das condições associadas. O terceiro é a toxina botulínica, útil para tiques focais, como movimentos de pescoço ou piscadas intensas. A aplicação reduz o tique e, frequentemente, a sensação de urgência que o antecede.

O acompanhamento funciona bem por teleconsulta: a avaliação se baseia na história e na observação dos movimentos por vídeo. Inclusive, os tiques que a pessoa "segura" no consultório costumam aparecer no conforto de casa.

Perguntas frequentes

Síndrome de Tourette some na vida adulta?
Em boa parte das pessoas, os tiques melhoram ou desaparecem no fim da adolescência. Em uma parcela, persistem, em geral mais discretos, e algumas voltam em fases de estresse. Quando persistem e incomodam, há tratamento eficaz.

Tique que começou depois de adulto é Tourette?
O início na vida adulta não é o padrão da síndrome de Tourette, que começa na infância. Nesse caso, a avaliação procura causas secundárias: medicamentos em uso, outras condições neurológicas ou psiquiátricas, e mais raramente lesões cerebrais. Merece investigação, sem alarmismo.

Palavrão faz parte da Tourette?
Não na maioria dos casos. A coprolalia (emissão involuntária de palavrões) acontece em uma minoria. Os tiques mais comuns são discretos: piscar, movimentos de rosto e pescoço, limpar a garganta. O estereótipo dos filmes não representa a realidade da maior parte dos pacientes.

Tique tem tratamento sem remédio?
Sim. A terapia comportamental CBIT (reversão de hábito) é uma das primeiras opções, com boa evidência de eficácia. Para tiques focais, como os de pescoço ou olhos, a toxina botulínica é outra alternativa sem medicação oral. Remédios entram quando essas opções não bastam.

Dr. Victor Maciel — neurologista (CRM/SP 205.127 · RQE 110265). Avaliação de tiques e síndrome de Tourette por teleconsulta para todo o Brasil — saiba mais.

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